Aeroportos cheios, estradas travadas, praias lotadas. O que isso revela sobre o brasileiro que diz não ter dinheiro
- Maison Dór Magazine

- 30 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
O discurso é conhecido. Está tudo caro. O dinheiro não dá. O mês termina antes do salário. Mas basta um feriado prolongado para o país parar. Aeroportos colapsam, rodovias viram estacionamentos, hotéis esgotam, praias ficam impraticáveis. O Brasil que “não tem dinheiro” está viajando.
Essa não é uma contradição econômica. É um retrato comportamental.

Reclamar virou linguagem social
No Brasil, reclamar não é apenas desabafo — é código de pertencimento. Dizer que está difícil virou sinal de lucidez, quase de consciência social. Mesmo quando a mala está pronta e o check-in feito. Reclamar protege a imagem. Ninguém quer parecer confortável demais num país desconfortável.
A cultura do agora
Planejamento nunca foi nosso ponto forte. O brasileiro aprendeu a viver no presente porque o futuro sempre pareceu instável demais para confiar. A lógica é simples e perigosa: se dá hoje, eu vou. Depois a gente vê. Poupar soa abstrato. Viver, não.
Viajar virou prova de existência
Experiência hoje vale mais que patrimônio. Não é sobre descanso — é sobre validação. Quem não vai, some. Quem não posta, não viveu. O lazer deixou de ser pausa e virou performance. Ficar em casa não é descanso, é quase fracasso social.
Crédito: o anestésico coletivo
Parcelamento, milhas, limite estourado, “depois eu resolvo”. O crédito não criou riqueza — criou a sensação dela. Muita gente viaja com dinheiro que ainda não ganhou, sustentando um estilo de vida que não fecha a conta, mas fecha o story.
Não é pobreza. É desorganização
Existe miséria real no Brasil, e ela não está nos aeroportos. O que se vê nos congestionamentos turísticos é outra coisa: uma classe média financeiramente confusa, emocionalmente pressionada e socialmente comparativa. Não falta dinheiro o tempo todo. Falta decisão, estratégia e, principalmente, assumir escolhas.
A verdade incômoda
O brasileiro não é incoerente. Ele é imediatista. Ele não mente quando reclama — mas omite que escolheu gastar. Não é “não tenho dinheiro”. É “não tenho dinheiro para tudo”.
E assumir isso exigiria maturidade. Reclamar é mais fácil.
No fim, os aeroportos lotados não negam a crise.
Eles revelam algo mais profundo: preferimos viver apertados agora do que parecer ausentes depois.
E essa escolha, embora compreensível, cobra juros altos — silenciosos, longos e inevitáveis.








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